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Euclides e o berço de Os Sertões
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EUCLIDES DA CUNHA: ARTE, FILOSOFIA E HISTÓRIA.
2011-06-24 14:59:51

 

EUCLIDES DA CUNHA: ARTE, FILOSOFIA E HISTÓRIA.
José Leonardo do Nascimento
                                                 (Livre-Docente em História da Cultura pelo Instituto de       
                                            Artesda Unesp. leo.filipo@uol.com.br)   
 
RESUMO: Análise dos vínculos entre arte literária e pressupostos conceituais presentes nos trabalhos de Euclides da Cunha. O artigo procura discernir, nas interpretações euclidianas da história do Brasil, concepções filosóficas, originárias dos cientificismos do século XIX, e narrativa literária.   
Palavras-chave: Euclides da Cunha; figuras de linguagem; positivismo; república; história do Brasil.    
 
 
Nas análises críticas de Os sertões de Euclides da Cunha, é geralmente feita uma distinção entre a matéria de que trata o livro, o seu conteúdo, e a sua expressão literária ou estilística. Procurarei discutir, neste ensaio, a relação da “carpintaria literária” com as concepções teóricas e com o conteúdo da análise euclidiana do episódio de Canudos.
Começo apresentando um pequeno e significativo trecho de Os Sertões, referente à descrição do “estouro da boiada”:
 
Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a 'arribada' – milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas e valos e cerros e galhadas – enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirados sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo – o vaqueiro! (CUNHA, 1981, p. 89-90)
 
O estouro da boiada, na minha maneira de ver, sintetiza o estilo euclidiano. A ação parece, nesta descrição, preceder ao agente. Os verbos empregados apresentam significados semelhantes: destruir, extinguir, abater, esvaziar. A insistência no movimento produz, naturalmente, um efeito hiperbólico. Esses verbos, de conteúdo mais ou menos semelhante, são seguidos por verbos de movimento no modo verbal que, por excelência, expressa a ação, o gerúndio. Mas como, na paleta euclidiana, a ação parece antecipar-se ao agente, tem-se a sugestão de que o ator, ao invés de controlá-la, é arrastado por ela, invertendo uma espécie de ordem natural e previsível. 
      Acresce-se a esse aspecto, o fato que Euclides utiliza, no seu texto, uma prefixação muito especial além de vocábulos raros e eruditos. O seu vocabulário, mesmo em sua época, assombrava. Basta-se ler as críticas do momento da publicação de Os sertões. José Veríssimo referiu-se, num artigo célebre publicado no rodapé literário do jornal O Correio da Manhã no dia 3 de dezembro de 1902, ao estilo euclidiano empolado, eivado de termos muito raros e de neologismos.
 É provável que o gosto pelas palavras raras e longas o tenha conduzido ao emprego de certos prefixos nos seus textos. Às palavras que sugeriam movimento, acoplavam-se alguns prefixos que intensificavam essa sugestão de movimento. Assim ocorria, por exemplo, com o prefixo des – que tanto pode reforçar o significado do vocábulo ao qual se une, como indicar movimento para trás. Deslembrar, por exemplo, é um verbo muito euclidiano. Ao se referir a um dos “cabecilhas” de Antônio Conselheiro, o José Venâncio, escreveu: "José Venâncio, o terror da Volta Grande, deslembra-se das dezoito mortes cometidas." (CUNHA, 1981, p. 135)
Usa, ainda, o prefixo re, que pode conotar movimento para trás, e o trans, significando para além de. O velho dicionário do Morais anota que o trans apresenta algumas formas evolucionadas em tres. Tresmalhar significa ir para além das malhas. É um vocabulário muito sertanejo dizer: "o gado tresmalhou", foi para além de suas malhas, perdeu-se.
   Euclides vai utilizando esses prefixos em parágrafos muito interessantes. Há um trecho sobre a debandada da Expedição de Moreira César, assim descrita: "Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; (...) desarmando-se; desapertando os cinturões para a carreira desafogada." (CUNHA, 1981, p. 237)
Ou, então, durante a remoção dos doentes da IV Expedição para Monte Santo:
“Os mais fortes ou mais bem montados (...) apelando para os recursos da flora singular,    transbordante de frutos e de espinhos – desgarravam, desarraigando tubérculos de umbuzeiros (...); catando os últimos frutos das árvores desfolhadas. (...) Deslembravam-se do inimigo.” (CUNHA, 1981, p. 318)
 
    Podemos encontrar outro exemplo no célebre episódio da “Matadeira”, de 1º de julho de 1897, quando o filho do canudense Joaquim Macambira, que também se chamava Joaquim, pediu ao pai permissão para atacar o famoso canhão Krup, de 1.600 quilos, empregado pelo exército em Canudos. Euclides assim descreveu o episódio:
 
O valente abalou, seguido de onze companheiros dispostos. Transpuseram o Vaza-Barris. O sol do meio-dia transverberando nas rochas expostas, refletindo nas chapadas nuas todo o calor emitido para a terra reflui tresdobrado para o espaço nas colunas ascensionais dos ares irrespiráveis e candentes. (CUNHA, 1981, p. 328)
 
Mas, antes de falar na interpretação euclidiana de Canudos, gostaria de fazer mais uma incursão pelas veredas literárias. Vou me referir a algumas metáforas euclidianas.
É preciso lembrar que as concepções euclidianas mudaram. Ele escreveu seus primeiros textos no jornal A Província de São Paulo, no período que se seguiu, imediatamente, a sua expulsão da Escola Militar por rebeldia republicana.
No mesmo jornal, mas agora intitulado de O Estado de São Paulo, ele publicou, no dia 14 de março de 1897, o seu primeiro artigo sobre Canudos, A Nossa Vendéia - I. Em 17 de julho do mesmo ano, escreveu A Nossa Vendéia - II. Em seguida, deslocou-se para Canudos como correspondente do jornal e escreveu “in loco” O Diário de uma Expedição. Em 1902, publicou Os sertões.
Em 1907, publicou Contrastes e Confrontos, Peru versus Bolívia e, em 1909, viria a lume uma publicação póstuma, mas previamente preparada pelo autor, os ensaios de À Margem da História.
Se compararmos este conjunto de textos, constataremos a evidência de diferenças entre eles. As teorias raciais estão presentes em Os sertões, mas não nos textos anteriores ao ano de 1902, e atenuaram-se nas obras de 1907 e 1909.
Euclides, que criticou violentamente o mestiço em Os sertões, taxando-o de “desequilibrado” ou de “neurastênico”, vai, por assim dizer, recuperá-lo, nos ensaios posteriores, enaltecendo a sua fácil adaptabilidade ao meio.
Se Euclides mudou, num aspecto, entretanto, não houve mudança. No conjunto de sua obra, ele recorreu a algumas metáforas com uma verdadeira obsessão. Uma delas, a mais conhecida, foi a metáfora da ruína. Ele atravessou o sertão nordestino enxergando escombros na geografia local. Mas essa metáfora já se fazia presente nos seus primeiros artigos.
A segunda metáfora é menos conhecida: a metáfora do pólipo ou do polipeiro. O pólipo é uma forma inferior do reino animal, uma boca circundada por tentáculos. O coral é um pólipo. Pode-se arrancar um ou mais tentáculos sem que o pólipo pereça. Sobre Canudos, incidiu o duro veredicto euclidiano: Canudos não passaria de um polipeiro.
A terceira metáfora é a imagem do autômato, do sonâmbulo ou do hipnotizado. Essas metáforas atravessaram o corpus euclidiano.
A Nossa Vendéia I foi uma justificativa e uma explicação da derrota em Canudos da Expedição Moreira César. Como exorcizar o fantasma do oficial republicano batido no sertão? O autor esboçou, já neste texto, a teoria da natureza áspera e adversa às forças adventícias, aos homens que não nasceram no seu seio e não foram criados por ela. Trata-se, pois, de esclarecer o “fácies” da geografia do Norte.
E aí surge essa imagem da ruína: a geografia daquela região seriam escombros. As rochas expostas às soalheiras inclementes – e sem proteção de cobertura vegetal - dilatariam-se e contrairiam-se abruptamente, num “desmoronamento secular e lento”. A geografia dos sertões lembraria "muramentos de castelos ciclópicos", "dando a ilusão de lanços colossais" e "semiderruídos de ciclópica muralha" (CUNHA, 1995, p. 607).
As bátegas violentas, despencando sobre rochas expostas, fragmentariam as rochas graníticas, produzindo a impressão destes "castelos ciclópicos derruídos".
Além disso, em A Nossa Vendéia I, ele aproximou o sertanejo do interior da Bahia aos camponeses rebelados da Vendéia, região anti-revolucionária do oeste da França. Como os vendeanos, os sertanejos agiriam sob o efeito de forte impressão religiosa. Suas ações não seriam guiadas pelo conhecimento nem pelo saber, mas pelo cego fanatismo religioso, como se fossem hipnotizados.
No artigo A Nossa Vendeia II ele voltou a se referir às formas fantásticas da geografia do Norte, "que recordam ruínas ciclópicas", e à relação do jagunço com "o iluminado medieval": "O mesmo desprendimento pela vida e a mesma indiferença pela morte dão-lhe o mesmo heroísmo mórbido e inconsciente de hipnotizado e impulsivo." (CUNHA, 1995, p. 611). É célebre a imagem presente em Os sertões dos conselheiristas capazes de armar os seus rifles com as contas do rosário.
Nesse segundo artigo de jornal, ressurgiu a imagem do pólipo, do polipeiro, referindo-se à Canudos: "Canudos apresenta uma organização rudimentar, cuja força está na própria inconsistência, cujas vantagens estão na própria inferioridade e que, desbaratados hoje, revivem amanhã dos próprios destroços como pólipos". (CUNHA, 1995, 609).    
A Nossa Vendéia I foi escrita sob o impacto da derrota da expedição Moreira César, A Nossa Vendéia II sob o também impacto, na consciência republicana, da morosidade do exército em operação no sertão e da dificuldade da sua vitória sobre os sertanejos.
As metáforas, acima assinaladas, reapareceram em Os sertões.
Referindo-se ao Cambaio, a montanha que o major Febrônio de Brito, na II Expedição militar, tentou atravessar inutilmente, escreve: "Porque o Cambaio é uma montanha em ruínas. Surge, disforme, rachando sobre o periódico embate de tormentas súbitas e insolações intensas, disjungida e estalada num desmoronamento secular e lento.” (CUNHA, 1981, p. 184).
 A imagem da ruína aplicou-se, igualmente, ao povoado, como se Canudos já fosse ruína no seu nascedouro: “O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho.” (CUNHA, 1981, p. 123). 
A imagem do autômato, estendida aos sertanejos nos primeiros trabalhos do autor sobre Canudos, reapareceu em Os sertões, em várias passagens. Euclides da Cunha foi pródigo em imagens sobre o líder de Canudos. Conselheiro seria um "dominador títere", “agiria passivo como uma sombra” (CUNHA, 1981, p. 110) que invadiu, paradoxalmente, a História. O Conselheiro-títere seria um produto da sociedade sertaneja e seria, portanto, como ela.
Nas palavras do autor, a figura de Antônio Conselheiro, vestindo um roupão azul de algodão, pervagando pelos sertões, produziu, na imaginação crendeira dos sertanejos, lendas que lhe avultavam a vida. O herói ouviu as histórias e buscou agir em consonância com elas. Neste diapasão, Conselheiro foi um resultado, um produto do meio social sertanejo e foi, nesta medida, que o dominou.
A metáfora do autômato foi aplicada, ainda, a um dos comandantes de Antônio Conselheiro, Pajeú: "Temperamento impulsivo. Era o tipo completo do ditador primitivo. Ingênuo, feroz e destemeroso. Valente por instinto. Herói sem saber.” (CUNHA, 1981, p. 192).
No Cambaio, um conselheirista abraçou um canhão do exército pela boca e gritou para os soldados: "Viram, canalhas, o que é ter coragem?" (CUNHA, 1981, p. 189). Mesmo a valentia sertaneja seria, nos termos euclidianos, instintiva e o heroísmo, desprovido de consciência.
Finalmente, a imagem do pólipo, do polipeiro, definiria a sociedade canudense:
 
De sorte que, ao fim de algum tempo, a população constituída dos mais díspares elementos, do crente fervoroso abdicando de si de todas as comodidades da vida noutras paragens, ao bandido solto, que ali chegava, de clavinote no ombro em busca de um novo campo de façanhas, se fez a comunidade homogênea e uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo sem evolver, sem órgãos e sem funções especializadas, pela só justaposição mecânica de levas sucessivas à maneira de um polipeiro humano. (CUNHA, 1981, p. 128).
 
E por que Canudos seria um polipeiro? Porque não haveria ali integração dos indivíduos por meio da divisão de funções sociais. Sabemos que havia divisões de funções sociais em Canudos. É possível que Euclides tenha ido à Canudos e não visto Canudos.
Mas desse argumento de Canudos-polipeiro adveio uma explicação essencial das dificuldades militares dos republicanos na caatinga baiana: como os canudenses realizariam as mesmas ações, as vitórias parciais das tropas superiores – divididas racionalmente em infantaria, artilharia, cavalaria, corpo de engenharia, etc. – não abalariam as força inimigas, da mesma forma que a extração de um tentáculo não invalida o organismo do pólipo.
            Canudos seria também uma ruína. No entender de Euclides da Cunha, a ruinaria brotaria do descontrole de forças poderosas. Mas aqui o seu raciocínio se desdobrou. A ruína poderia nascer de forças opostas, em conflito permanente, sem a conciliação de um contrapeso ou de uma espécie de fiel da balança. Vejam o que se passa com as rochas graníticas dos sertões da Bahia: ou dilatam-se em demasia, ou contraem-se rapidamente. São movimentos alternados e extremos. Neste caso, elas se fragmentariam. Seria esse um dos motivos da ruína.
O segundo motivo exprimiria uma visão da História baseada nos pressupostos da filosofia da história evolucionista. A noção de que a História passaria por etapas necessárias. As fases mais provectas da História estariam vinculadas às crenças fetichistas e religiosas. Segundo Euclides, os sertanejos entendiam o mundo pelo incompreendido dos milagres. Ou seja, explicariam o mundo por noções religiosas. Seria a esta fase histórica teológica que canundenses estariam ligados. Ora, as atitudes das pessoas vinculadas à fase teológica trariam, naturalmente, as marcas do passado, tudo o que construíssem seria velho e, assim, Canudos nasceria velha.
A imagem do polipeiro é o outro lado, o anverso, da concepção funcionalista da sociedade: a sociedade desenvolvida seria integrada pela divisão do trabalho. Uns dependeriam dos outros. Ocorreria, pela divisão do trabalho, uma integração das massas sociais heterogêneas, definida pela cooperação.
A sociedade desenvolvida seria, pois, heterogênea e cooperativa, a menos evoluída, ao contrário, teria a marca da homogeneidade e seria, em decorrência de sua baixa integração social, instável e mutável. Estas noções evolucionistas teriam sido hauridas por Euclides da Cunha na filosofia de H. Spencer.
Portanto, o argumento euclidiano de Canudos-polipeiro (sem cooperação social) plasmava uma filosofia da história e convertia-se num veredicto, numa desclassificação da comunidade canudense à luz do progresso social.  
A imagem do autômato complementava as metáforas anteriores. O autômato seria o oposto da ética cientificista da ação racional. Augusto Comte, mestre da filosofia positivista, tinha uma capacidade extraordinária de resumir o seu sistema filosófico em poucas frases. Ordem e Progresso sintetizam os dois lados da sua Sociologia, a estática e a dinâmica sociais. Comte forjara uma expressão igualmente célebre para exprimir a sua ética cientificista: conhecer para prever, para prover.
O homem guiado pela Ciência, primeiro conheceria leis, depois agiria. A sociologia teria descoberto leis sociais, logo a ação social deveria se guiar por elas. Euclides descreveu os canudenses como autômatos, porque na sua maneira de entender, eles atuariam sem leis e conhecimentos, guiados exclusivamente por sentimentos religiosos.
Refletindo sobre as imagens literárias e o estilo euclidianos, que conteúdo o autor de Os Sertões atribuiu ao fenômeno social de Canudos? Canudos seria uma ruína, um povo ligado ao passado, à etapa teológica, em pleno período positivo, edificando o passado no presente, construindo ruínas e escombros. Canudos seria um afloramento de idades remotas na era da Ciência. Além de ruína, Canudos seria um polipeiro, uma sociedade homogênea e retardatária, sem divisão de funções. Desta situação nasceu a dificuldade de vitória do exército republicano. Os canudenses, autômatos, sonâmbulos, manifestariam desprezo para com a vida e agiriam sem conhecimento.
Neste quadro pintado, com cores fortes, em Os Sertões, quais seriam os motivos da luta canudense? Note-se que a expressão utilizada é sempre "luta" e não “guerra”. O atraso social dos sertões teria arrastado, na concepção euclidiana, o conflito para os patamares inferiores de uma luta cruenta e assistemática. No momento de elaboração do “livro vingador”, o republicanismo de Euclides havia se desvanecido. A sua explicação da “luta” o demonstra.
Com a proclamação da República, a elite brasileira reiterou o comportamento político que já havia se manifestado desde a Independência do país em 1822. O republicano de primeira hora aproximava e assemelhava a República à Independência. Os dois acontecimentos contariam com uma unidade de base: ambos foram produzidos por um mesmo ethos da elite nativa que, fascinada pelas luzes da civilização européia, imitou códigos jurídicos e políticos forjados pelas sociedades evoluídas, heterogêneas, e os aplicou a homogeneidade de uma sociedade informe e retrasada.
Dedicou-se, pois, a uma faina cega de copistas, e, neste ritmo, elaborou as primeiras Constituições brasileiras. O ordenamento jurídico avantajou-se às reais condições históricas do país e, nestas circunstâncias, os sertanejos, incapazes de entenderem o caráter superior da nova organização política, reagiram. Esta reação negativa ao novo, ao moderno, embora coerente, previsível, não foi minimamente entendida pelos republicanos que viram o episódio por intermédio de “uma ocular invertida”. Visto pelas lentes menores do binóculo, o acontecimento tornou-se nebuloso e bizarro.
Neste momento, Euclides parecia fazer uma autocrítica, reconhecendo que também ele havia errado ao denominar o fenômeno sertanejo de monarquista e “vendeiano”. O drama e os personagens, no Brasil, eram outros. Os sertões haviam sido esquecidos pela elite política brasileira, vivendo no litoral, durante 300 anos e quando a República exigiu dos sertanejos um comportamento político adequado à modernização institucional recém instituída, e estes não o fizeram, a “civilização” litorânea procurou puxá-los para “as luzes da civilização” por meio de um quadrado de baionetas.
Euclides revelou-se, neste momento, um crítico severo da República. A República, em vez de criar, imitou, copiou modelos políticos, novos na própria Europa, e os aplicou a uma sociedade mal constituída. O resultado foi perverso.
Euclides elaborou, assim, algumas noções que estarão presentes no pensamento político brasileiro autoritário do século XX. As franquias liberais transplantadas para uma sociedade atrasada, dariam origem a uma situação absolutamente imprópria para o exercício da cidadania, a uma brutal manipulação política com o surgimento, nas regiões sertanejas, de poderosos "conquistadores de urnas".
O ritual eleitoral forjaria nos sertões "senhores de baraço e cutelo", déspotas locais de casta autoritária e violenta. As franquias liberais, transportadas para a sociedade homogênea, converteu-se em autoritarismo. Ou seja, os princípios líbero-democráticos transplantados de sua sociedade de origem provocariam, no Brasil, um efeito contrário às intenções originais. O que era democracia transformou-se em dominações locais. De forma que Euclides elaborou uma crítica à Constituição Republicana de 1891.
Euclides está na origem de um pensamento político que vai atravessar o século XX brasileiro. Ele tem discípulos brilhantes (e autoritários) como Oliveira Vianna, que revestiu a crítica euclidiana às importações de idéias na célebre expressão de uma oposição, muito típica da história do Brasil, do país legal com o país real.
Não se trata, portanto, de responsabilizar os “canudenses-autômatos”, nem a “Canudos-polipeiro” ou a “Canudos-ruína” pelo conflito sangrento desenrolado nos sertões da Bahia.. A responsabilidade caberia diretamente à elite brasileira.
Euclides da Cunha desenvolveu aí uma teoria da “Responsabilidade Exclusiva” dos republicanos, como se somente os republicanos pudessem fazer História. Os canudenses teriam sido coerentes e não poderiam ter agido diferentemente do que fizeram.
 
Referências bibliográficas.
COMTE, A. Cours de philosophie positive. Paris: Hermann Éditeur des Sciences et
                     des Arts, 1975. 2. v.
CUNHA, E. da Os sertões. 30. ed. RJ: Editora Francisco Alves, 1981.
                           Obra completa. 2 ed. V. II. RJ: Editora Nova Aguilar, 1995.
SPENCER, H. Les premières principes. Paris: Librairie Germer Baillière, 1880.
VERÍSSIMO, J. Os sertões, campanha de Canudos por Euclides da Cunha. In:          
Juízos críticos – os sertões e os olhares de sua época. Org. José Leonardo do                                          
Nascimento Valentim Facioli. SP: Nankin Editorial: Editora da Unesp, 2003. p. 46-
54.

 
José Leonardo do Nascimento
 
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